A vantagem da honestidade emocional

27-11-2014 09:01

A VANTAGEM DA HONESTIDADE EMOCIONAL
Klênia Carvalho

Há uma frase que diz que “a pior mentira é a que contamos para nós mesmos”. Contudo, poucos de nós temos a dimensão do prejuízo que nos causamos sendo desonestos. Somos demandados por eventos imprevisíveis nas situações cotidianas a todo o momento. Como, por exemplo, quando somos fechados por outro motorista no trânsito, quando uma pessoa passa na nossa frente na fila do supermercado, quando o carteiro troca nossas correspondências ou quando o chefe nos cobra uma tarefa que não havia pedido. Enfim, todos esses acontecimentos nos provocam emoções. Como reagimos? Geralmente, culpando o outro por nossos descompassos e descontroles.
Alguns alegam não ter “sangue de barata” e afirmam, portanto, que o sangue “ferve nas veias”. O fato é que uma pessoa pacífica não reage da mesma maneira que um raivoso. A grande maioria das pessoas atribui o “bom gênio” à natureza, acreditando que as pessoas já nascem assim. O fato é que ignoramos que podemos mudar esses comportamentos.
O primeiro passo para isso acontecer é admitir que temos um lado sombra, ou seja, uma parte que não é má, mas sim desconhecida. Assim, urge que nos coloquemos em uma posição de observação e escuta. Observação para registrar a nossas reações diante das situações, e escuta para verificar o nosso diálogo mental após o fato.
A grande questão é que não estamos acostumados a registrar nossas reações e muito menos escutar os nossos diálogos mentais. Rubem Alves dizia no texto “Escutatório” que para ver a beleza, deveríamos “não ter filosofia alguma”. “Filosofia é um monte de ideias dentro da cabeça sobre como são as coisas”, afirmou. Já em relação à escuta, avaliava que a “incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos”.
Penso que enquanto conjecturamos como as coisas acontecem segundo a nossa perspectiva, perderemos as oportunidades de nos conhecermos. Uma demonstração de como distorcemos a realidade acontece quando repetimos frases como: “Eu sou assim porque meu pai...”, ou “Eu sou assim porque não tive...”. Enfim, criamos um álibi para justificar nossos jeitos de ser e não entrarmos em contato com as nossas emoções.
Se a percepção de nós mesmo já é ruim, a nossa habilidade de escuta não fica atrás. Artur da Távola afirma no texto “O Difícil Facilitário do Verbo Ouvir” que as pessoas não ouvem o que o outro fala, mas sim ouvem o que querem ouvir, o que imaginam que o outro ia falar, o que confirmam ou rejeitem o seu próprio pensamento, etc. Declarando que, “há pessoas que se defendem de ouvir o que as outras estão dizendo, por verdadeiro pavor inconsciente de se perderem a si mesmas. Elas precisam não ouvir, porque não ouvindo livram-se da retificação dos próprios pontos de vista, da aceitação de realidades diferentes das próprias”.
Portanto, escutar não é um processo simples, requer abertura interior do receptor e um esforço para não mascarar as reações emocionais com argumentos mentais falsos. A princípio, ser honestos conosco pode gerar desconforto, pois a sensação de vergonha ou de orgulho ferido poderá se manifestar, principalmente, ao visualizamos cenas em que agimos de forma arrogante, vaidosa, invejosa ou preconceituosa, para não dizer ridícula. Porém, honestidade e aceitação andam juntas. Ao sermos honestos conosco, teremos a oportunidade de entrar em comunhão que “é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto...” segundo palavras Rubens Alves.



Fonte: Estado de Minas, Caderno Opinião, 07 agosto 2014

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